Gômer: Quando a Humanidade Começa a Andar para Longe



Depois do dilúvio, Deus não deixou a humanidade parada. O mundo não nasceu para ser museu, mas estrada. O mesmo Deus que havia atraído os animais à arca sem que ninguém precisasse caçá-los, buscá-los ou empurrá-los, agora fala outra vez. Antes, eles vieram por um impulso invisível, conduzidos por uma força que não era medo, mas obediência embutida na criação. Agora, Ele se dirige aos homens.

Imagine o pronunciamento. Não foi um sussurro tímido. Foi uma ordem que sacudiu o chão ainda úmido: Ide. Multiplicai-vos. Enchei a terra. O Deus que moveu elefantes, aves e répteis em filas silenciosas para dentro da arca agora move famílias inteiras para fora dela

A Escritura diz:

Então Deus abençoou Noé e seus filhos e lhes disse: ‘Sejam férteis e multipliquem-se. Encham a terra.’” (Gênesis 9:1, NVT)

E novamente:

Multipliquem-se e espalhem-se pela terra.” (Gênesis 9:7, NVT)

Depois do dilúvio, Deus não deixou a humanidade parada. Ele deu uma ordem que moldaria toda a história: movimento, multiplicação e expansão. Não centralização, não exaltação, não torres, mas caminhada.

Esse é o pano de fundo da linhagem de Jafé. A Bíblia não diz explicitamente que Jafé ou seus filhos pensaram conscientemente: “Vamos obedecer a Gênesis 9”. Mas o que vemos na história de seus descendentes é exatamente isso: um movimento para fora, não para cima; para longe, não para o centro. E aqui entra Gômer.


Quem foi Gômer?

Gênesis 10:2 nos diz:

Os descendentes de Jafé foram Gômer, Magogue, Madai, Javã, Tubal, Meseque e Tirás.” (Gênesis 10:2, NVT)

Gômer é apresentado como o primeiro filho de Jafé. E seu nome fica ligado, ao longo da história, a povos que migraram para o Ocidente. Muitos estudiosos associam Gômer aos antigos citas, celtas e povos germânicos, que saíram da região da Ásia Menor e se espalharam pela Europa. Desses troncos surgiram povos que hoje reconhecemos como antepassados de grande parte da população europeia: gauleses (França), britânicos e irlandeses, germânicos da Alemanha, escandinavos da Noruega, Suécia e Dinamarca, além de grupos que deram origem aos holandeses, belgas e parte dos suíços. A tenda de Gômer acabou se transformando em vilas, depois em cidades, e por fim em nações.

Ou seja, quando a Bíblia fala de Gômer, não está falando de um nome perdido na poeira do tempo, mas de uma raiz que ainda pulsa nos mapas, nas línguas e nos rostos do Ocidente. A ordem “espalhem-se pela terra” encontrou em Gômer não uma torre para subir, mas uma estrada para seguir.

Não temos documentos assinados por Gômer. Não temos mapas com seu nome escrito. O que temos é padrão, direção e coerência histórica. E isso nos permite, com humildade, conjecturar: os filhos de Gômer foram os primeiros grandes andarilhos do pós-dilúvio.


O Homem que se Espalha sem Centro

O traço espiritual de Gômer não é o trono, é o caminho. Não é o palácio, é a estrada. Seus descendentes não constroem um centro único de poder. Eles se espalham. Eles migram. Eles ocupam terras novas.

Isso ecoa a promessa feita a Jafé por Noé:

Que Deus amplie o território de Jafé! Que Jafé viva nas tendas de Sem, e que Canaã seja seu servo.” (Gênesis 9:27, NVT)

A palavra-chave é ampliar. Deus não prometeu a Jafé um trono, mas espaço. Não prometeu centralização, mas expansão.

Gômer é o começo disso. É a humanidade aprendendo, outra vez, a andar.


Gômer e o Cumprimento da Promessa

O gancho espiritual é forte: Deus prometeu ampliar Jafé. E Ele fez isso espalhando seus filhos até os confins.

Não foi com impérios centralizados.
Não foi com cidades que tocam o céu.
Foi com passos.

Gômer nos ensina que o avanço do plano de Deus muitas vezes não vem com barulho de martelos, mas com poeira nos pés.


Conclusão: Quando Deus Nos Manda Andar

A história começa com uma ordem: “Espalhem-se.”
Gômer é a resposta em movimento.

Ele não reina. Ele caminha.
Ele não centraliza. Ele dispersa.
Ele não constrói torre. Ele arma tenda.

E assim, antes de Babel levantar seus tijolos, Gômer já estava levantando acampamentos.

A humanidade começou andando.
E talvez seja exatamente aí que Deus mais trabalha.


Ó Deus eterno e peregrino de nossas almas,
nós Te adoramos porque Tu não és um Deus de estagnação,
mas de movimento santo,
não de museus, mas de caminhos abertos.

Tu nos criaste para andar Contigo,
e quando paramos, o coração apodrece em torres de orgulho.
Confessamos que amamos mais o centro do que a obediência,
mais a segurança do que a expansão,
mais o conforto do que a fé.

Assim como atraíste os animais à arca
sem gritos, sem laços, sem violência,
também nos atrai pelo Teu Espírito,
não por medo, mas por amor obediente.

Quando disseste: “Espalhem-se”,
não falaste para nos perder,
mas para nos multiplicar em propósito.
Não nos chamaste para subir,
mas para seguir.

Livra-nos do espírito de Babel
que quer tocar o céu sem depender de Ti.
Dá-nos o espírito de Gômer
que prefere a estrada à torre,
a tenda ao trono,
o chamado ao controle.

Ensina-nos a andar com poeira nos pés e céu nos olhos.
Que nossas casas sejam acampamentos do Reino.
Que nossos filhos aprendam mais sobre fé do que sobre conforto.
Que nossas rotas revelem mais obediência do que ambição.

Amplia-nos, ó Deus,
não em fama, mas em fidelidade.
Não em poder, mas em propósito.
Não em muros, mas em missões.

Onde quisermos parar por medo,
faz-nos caminhar por fé.
Onde quisermos subir por orgulho,
faz-nos descer por graça.

E quando estivermos cansados,
lembra-nos que o Senhor que ordena a caminhada
é o mesmo que vai conosco na estrada.

Nós Te pedimos isso
não porque somos dignos de ir,
mas porque Tu és fiel em nos conduzir.

Amém.

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