Olhar para Jesus confronta nossa busca por conforto


Existe um evangelho silencioso que pregamos a nós mesmos todos os dias: “Que seja leve. Que seja confortável. Que seja aprovado.” Ele não está escrito em nossas declarações doutrinárias, mas pulsa nas entrelinhas das nossas escolhas. Queremos servir a Cristo, mas sem fricção. Queremos fidelidade sem rejeição. Queremos cruz, desde que seja decorativa, pendurada no pescoço e não cravada no ego.

E é exatamente dessa raiz que brotam tantos movimentos espúrios que infestam o cenário religioso. Quando o coração exige conforto acima da verdade, nasce o evangelho da prosperidade, prometendo colheitas abundantes sem o solo da renúncia. Quando não suportamos a pedagogia do sofrimento, surge o evangelho de cura e libertação como solução permanente para qualquer dor, como se a cruz tivesse sido apenas um atalho terapêutico. Quando desejamos controlar o invisível, floresce o evangelho da confissão positiva, onde palavras humanas tentam subjugar a soberania divina. Quando preferimos personalidades carismáticas à autoridade das Escrituras, multiplicam-se os evangelhos dos gurus. E quando o medo de não atrair domina a igreja, ela se reinventa como vitrine de entretenimento, ajustando música, atividades, performances e estratégias para seduzir o não crente, como se o novo nascimento pudesse ser produzido por estímulo sensorial.

Tudo isso tem uma raiz comum: a recusa da cruz como instrumento de morte. Queremos um Cristo útil, inspirador, terapêutico, motivacional. Queremos um Reino que não confronte nossa carne. Queremos uma mensagem que não escandalize, que não ofenda, que não exponha o pecado com luz cirúrgica.

Mas quando olhamos para Jesus, essa fantasia evapora.

Diante dEle, o Cristo que suportou hostilidade, desprezou a vergonha e caminhou resolutamente para o Calvário, todo evangelho moldado pelo conforto revela sua fragilidade. A cruz deixa de ser símbolo estético e volta a ser sentença. E então a pergunta que nos persegue não é se o culto está atraente, mas se nossa vida está crucificada.

Hebreus nos chama com clareza cortante:

Portanto, uma vez que estamos rodeados por tão grande multidão de testemunhas, livremo-nos de todo peso que nos atrapalha e do pecado que nos envolve, e corramos com perseverança a corrida que nos é proposta, mantendo os olhos em Jesus, o autor e consumador da fé. Por causa da alegria que o esperava, ele suportou a cruz, desprezando a vergonha, e agora está sentado à direita do trono de Deus. Pensem em toda a hostilidade que ele suportou dos pecadores; assim, vocês não se cansarão nem desanimarão.” (Hebreus 12:1-3, NVT)

Ele suportou hostilidade. Nós evitamos desconforto.

Ele desprezou a vergonha. Nós administramos reputação. 

Ele carregou uma cruz real. Nós reclamamos de críticas digitais.

Ele suportou oposição

Jesus não foi apenas rejeitado no final. A oposição acompanhou cada passo do seu ministério.

Veio ao mundo que ele criou, mas o mundo não o reconheceu. Veio a seu próprio povo, e eles o rejeitaram.” (João 1:10-11, NVT)

O Criador entrou na própria criação e foi tratado como intruso. A Luz brilhou, e os homens preferiram as sombras.

A luz brilha na escuridão, e a escuridão nunca conseguiu apagá-la.” (João 1:5, NVT)

Ele não ajustou a mensagem para torná-la palatável. Não suavizou a verdade para preservar aplausos. Não negociou santidade por popularidade.

Quando confrontou o pecado, foi chamado de blasfemo.
Quando demonstrou graça, foi chamado de amigo de pecadores.
Quando permaneceu em silêncio, foi acusado.

Isaías já havia anunciado:

Era desprezado e rejeitado, homem de dores, acostumado ao sofrimento mais profundo. Demos as costas para ele e desviamos o olhar. Ele foi desprezado, e não nos importamos.” (Isaías 53:3, NVT)

Olhar para Jesus é olhar para alguém que não construiu uma vida centrada no conforto, mas na obediência.

Nós queremos aplauso

Há algo dentro de nós que deseja aprovação. Queremos ser compreendidos, celebrados, reconhecidos. E quando a fidelidade nos coloca na contramão da cultura, sentimos o peso da rejeição como se fosse injustiça.

Mas o próprio Cristo nos advertiu:

Se o mundo odeia vocês, lembrem-se de que antes odiou a mim. O mundo os amaria se vocês lhe pertencessem, mas vocês já não fazem parte do mundo. Eu os escolhi para que saíssem do mundo; por isso ele os odeia.” (João 15:18-19, NVT)

Buscar conforto acima da fidelidade é um sintoma de que estamos tentando viver dois reinos ao mesmo tempo.

Jesus foi claro:

Se algum de vocês quer ser meu seguidor, negue a si mesmo, tome sua cruz e siga-me.” (Mateus 16:24, NVT)

Tomar a cruz não é metáfora para pequenos inconvenientes. É decisão diária de morrer para o ego, para a necessidade de validação, para o vício em aplauso.

Conforto ou Cristo?

Não é pecado desejar descanso. O próprio Cristo oferece descanso:

Venham a mim todos vocês que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso.” (Mateus 11:28, NVT)

Mas o descanso que Ele oferece não é fuga da obediência. É força no meio dela.

Olhar para Jesus nos confronta porque revela a diferença entre nossa agenda e a dEle. Ele viveu para agradar ao Pai:

Pois eu sempre faço o que lhe agrada.” (João 8:29, NVT)

Essa foi a bússola do Filho. Não a popularidade. Não a aceitação pública. Não o conforto.

Quando fixamos os olhos nEle, percebemos que nosso incômodo muitas vezes nasce não da perseguição real, mas da frustração de não sermos celebrados.

O que fazemos quando a oposição chega?

Hebreus nos dá o caminho: “Pensem em toda a hostilidade que ele suportou”. Contemplem. Considerem. Meditem.

Não olhe para a oposição isoladamente. Olhe para Jesus dentro dela.

Quando a crítica vier por causa da verdade, olhe para Jesus.
Quando a obediência custar relacionamentos, olhe para Jesus.
Quando a fidelidade não gerar aplauso, olhe para Jesus.

Ele suportou. Ele permaneceu. Ele venceu.

E agora está “sentado à direita do trono de Deus” (Hebreus 12:2, NVT).

A cruz não foi o fim. A rejeição não foi a última palavra. O silêncio diante dos acusadores não significou derrota.

Olhar para Jesus confronta nossa busca por conforto porque nos lembra que a glória vem depois da fidelidade, não antes.

A pergunta que permanece é simples e penetrante:

Estamos buscando conforto… ou estamos seguindo Cristo?


Ó Deus eterno e Santo, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, diante de Ti confessamos que muitas vezes abraçamos um evangelho suavizado pelo conforto e moldado pelo desejo de aprovação. Queremos servir-Te sem fricção, obedecer-Te sem oposição, carregar uma cruz que não fira nosso orgulho. Perdoa-nos por transformar a fidelidade em espetáculo e a cruz em ornamento.

Senhor, quando lemos que, “Por causa da alegria que o esperava, ele suportou a cruz, desprezando a vergonha, e agora está sentado à direita do trono de Deus”, reconhecemos quão distante está nosso coração dessa disposição. Enquanto Ele suportou hostilidade, nós evitamos desconforto. Enquanto Ele desprezou a vergonha, nós administramos reputações. Tem misericórdia de nós.

Grava em nossa alma que “Veio ao mundo que ele criou, mas o mundo não o reconheceu. Veio a seu próprio povo, e eles o rejeitaram”. Se o Criador foi tratado como intruso, por que esperamos tapetes vermelhos? Se a Luz brilhou e foi rejeitada, por que exigimos aplauso? Livra-nos da ilusão de que podemos agradar ao mundo e ao mesmo tempo seguir o Cordeiro.

Quando ouvirmos: “Se o mundo odeia vocês, lembrem-se de que antes odiou a mim”, dá-nos não um espírito ressentido, mas um coração firme. Que a rejeição por amor à verdade não nos torne amargos, mas mais parecidos com Cristo. Ensina-nos a tomar a sério o chamado: “Se algum de vocês quer ser meu seguidor, negue a si mesmo, tome sua cruz e siga-me”. Crucifica em nós o vício da validação, a fome por elogios, a necessidade de sermos celebrados.

Senhor Jesus, Tu disseste: “Venham a mim todos vocês que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso”. Conduze-nos ao Teu descanso que fortalece para obedecer, não ao descanso que foge da obediência. Dá-nos a mesma bússola que guiou Teu coração quando afirmaste: “Pois eu sempre faço o que lhe agrada”. Que essa seja também nossa orientação secreta e pública.

Quando a crítica vier por causa da verdade, faz-nos olhar para Ti. Quando a fidelidade custar relacionamentos, faz-nos olhar para Ti. Quando a obediência não gerar aplauso, faz-nos olhar para Ti. Ensina-nos a “pensar em toda a hostilidade que ele suportou”, para que não nos cansemos nem desanimemos.

Ó Pai, firma nossos pés na certeza de que a cruz não é o fim e que a rejeição não tem a última palavra. Ajusta nossos afetos, disciplina nossos desejos, purifica nossas motivações. Que busquemos não conforto acima de tudo, mas Cristo acima de tudo.

Concede-nos graça para correr com perseverança, olhos fixos no Autor e Consumador da fé, até o dia em que, tendo sido fiéis pela Tua força, participemos da glória que vem depois da obediência.

Em nome de Jesus, nosso Senhor rejeitado e exaltado, oramos.

Amém.

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